Como os detalhes da morte de Cristo foram profetizados?

O “corte” de Cristo predito em detalhe pelos profetas do Antigo Testamento

Em nossa última postagem nós vimos que ‘Cristo’ seria ‘cortado’ após um ciclo específico de anos. Esta predição de Daniel foi cumprida na entrada triunfante de Jesus em Jerusalém – ali apresentado como Cristo de Israel – exatamente 173.880 dias após o decreto persa para restaurar Jerusalém ter sido promulgado. A expressão ‘cortado’ foi mencionada na imagem de Isaías do Ramo nascendo a partir de uma raiz aparentemente morta. Mas o que ele quis dizer com esta imagem?

Isaías mostrado em cronologia histórica. Ele viveu no período do governo dos reis davídicos
Isaías mostrado em cronologia histórica. Ele viveu no período do governo dos reis davídicos

Isaías também tinha escrito outras profecias em seu livro, utilizando temas diferentes do tema do Ramo. Um destes temas foi sobre a vinda do Servo. Quem era este Servo’? O que ele iria fazer? Vamos analisar em detalhe esta longa passagem. Eu reproduzo abaixo a passagem em sua totalidade e exatamente como ela é, apenas inserindo alguns comentários meus.

O Servo vindouro. A passagem completa de Isaías 52:13-53:12

Vejam, o meu servo agirá com sabedoria;

será engrandecido, elevado e muitíssimo exaltado.

Assim como houve muitos que ficaram pasmados diante dele;

sua aparência estava tão desfigurada, que ele se tornou irreconhecível como homem;

não parecia um ser humano; de igual modo ele aspergirá muitas nações,

e reis calarão a boca por causa dele. Pois aquilo que não lhes foi dito verão,

e o que não ouviram compreenderão. (Isaías 52:13-15)

Sabemos que este Servo será um homem, pois Isaías se refere ao Servo como um ‘ele’, ‘o’, ‘dele’, e especificamente descreve acontecimentos futuros (a partir das expressões ‘agirá’, ‘será levantado’, e assim sucessivamente), portanto, esta é uma profecia explícita. Mas do que tratava essa profecia?

Quando os sacerdotes judeus ofereciam sacrifícios para os israelitas, eles os aspergiam com sangue do sacrifício – simbolizando que seus pecados foram cobertos e não seriam mais mantidos contra eles. Mas aqui o texto diz que o Sevo aspergirá ‘muitas nações’, portanto, Isaías está dizendo, de maneira semelhante, que este Servo também irá prover aos não judeus assim como os sacerdotes do Antigo Testamento faziam pelos adoradores judeus.

Esta predição é paralela à de Zacarias de que o Ramo seria um sacerdote, unindo os papeis de Rei e Sacerdote, porque somente os sacerdotes poderiam aspergir sangue. Este escopo global de ‘muitas nações’ segue aquelas promessas históricas e verificáveis feitas séculos atrás a Abraão, de que ‘todas as nações’ serão abençoadas através de sua descendência.

Mas ao aspergir sobre as muitas nações a própria ‘aparência’ e ‘forma’ do Servo é predita como sendo ‘desfigurada’ e ‘irreconhecível’. E embora não fique prontamente claro o que o Servo fará, um dia as nações ‘entenderão’.

Quem creu em nossa mensagem? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Ele cresceu diante dele  como um broto tenro,

e como uma raiz saída de uma terra seca.

Ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse,

nada havia em sua aparência para que o desejássemos.

Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de dores

e experimentado no sofrimento. Como alguém de quem

os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima. (Isaías 53:1-3)

Embora o Servo viesse a aspergir muitas nações, ele seria ‘desprezado’ e ‘rejeitado’, cheio de ‘sofrimento’ e ‘familiarizado com o sofrimento’.

Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades

e sobre si levou as nossas doenças; contudo nós o consideramos

castigado por Deus, por Deus atingido e afligido.

Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões,

foi esmagado por causa de nossas iniqüidades;

o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. (Isaías 53:4-5)

O Servo irá assumir ‘nossa’ dor. Este Servo também será ‘perfurado’ e ‘esmagado’ em ‘castigo’. O castigo nos trará (àqueles nas muitas nações) ‘paz’ e nos curará.

Eu escrevo isto na sexta-feira santa. Tanto as fontes seculares quanto as bíblicas nos contam que neste dia aproximadamente 2000 anos atrás (mas ainda mais 700 anos após Isaías ter feito esta predição), Jesus foi crucificado. Ao fazer isto ele foi literalmente perfurado, conforme Isaías previu que o Servo seria, com os pregos da crucificação.

Todos nós, tal qual ovelhas, nos desviamos,

cada um de nós se voltou para o seu próprio caminho;

e o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós.          (Isaías 53:6)

 Vimos em Corruptos… errando o alvo, que uma das definições bíblicas de pecado é ‘errar o alvo intencionado’. Como uma flecha torta, nós seguimos nosso próprio caminho. Este Servo carrega o mesmo pecado (iniquidade) que causamos.

Ele foi oprimido e afligido; e, contudo, não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado para o matadouro, e como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a sua boca. (Isaías 53:7)

O Servo será como um cordeiro sendo levado ao ‘matadouro’. Mas ele não protestará ou sequer ‘abrirá sua boca’. Vimos no Sinal de Abraão  que um carneiro foi usado como substituto para o filho de Abraão. Aquele carneiro – um cordeiro – foi morto. E Jesus foi morto no mesmo local  (Monte Moriá = Jerusalém). Vimos na Páscoa que um cordeiro foi morto na páscoa – e Jesus também foi morto na Páscoa.

 Com julgamento opressivo ele foi levado.
E quem pode falar dos seus descendentes?
Pois ele foi eliminado da terra dos viventes;
por causa da transgressão do meu povo ele foi golpeado. (Isaías 53:8)

 Este Servo é ‘cortado’ ‘da terra dos viventes’. Isto é exatamente o termo empregado por Daniel  quando ele predisse o que aconteceria ao Cristo após ele ser apresentado a Israel como seu Messias. Isaías prediz em mais detalhes que ‘cortado’ significa ‘cortado da terra dos viventes’ – isto é, morte! Então, naquela fatídica sexta-feira santa Jesus morreu, sendo literalmente ‘cortado da terra dos viventes’, pouquíssimos dias após ter sido apresentado como o Messias em sua entrada triunfante.

Foi-lhe dado um túmulo com os ímpios, e com os ricos em sua morte, embora não tivesse cometido nenhuma violência nem houvesse nenhuma mentira em sua boca.  (Isaías 53:9)

Apesar de Jesus ter sido executado e morrido como um criminoso (‘foi-lhe dado um túmulo entre os ímpios’), os escritores do evangelho nos contam que um homem rico, dos líderes do sinédrio, José de Arimatéia, pegou o corpo de Jesus e o enterrou em seu próprio túmulo (Mateus 27:60). Jesus literalmente cumpriu os dois lados da predição paradóxica – embora ele ‘tenha recebido um túmulo entre os ímpios’, ele também esteve ‘com o rico em sua morte’.

 Contudo, foi da vontade do Senhor
esmagá-lo e fazê-lo sofrer,
e, embora o Senhor tenha feito da vida dele
uma oferta pela culpa,
ele verá sua prole e prolongará seus dias,
e a vontade do Senhor
prosperará em sua mão. (Isaías 53:10)

Toda esta morte cruel não foi um acidente terrível ou um infortúnio. Foi explicitamente “a vontade de Deus” esmagá-lo. Mas por quê? Assim como cordeiros no sistema sacrificial mosaico eram ofertas pelos pecados de maneira que a pessoa oferecendo o sacrifício era tida como sem culpa, aqui a ‘vida’ deste Servo também é uma ‘oferta pelo pecado’. Pelo pecado de quem? Bem, considerando que ‘muitas nações’ seriam ‘aspergidas’ (acima), é o pecado das pessoas nas ’muitas nações’. Aqueles ’todos’ que ’se afastaram’ e ’ se desviaram’ de quem Isaías está falando somos eu e você.

Depois do sofrimento de sua alma, ele verá a luz e ficará satisfeito; pelo seu conhecimento meu servo justo justificará a muitos, e levará a iniqüidade deles. (Isaías 53:11)

Embora a passagem do Servo seja horrível, aqui ela muda o tom e se torna mais otimista e até mesmo triunfante. Após este terrível sofrimento (de ser ’cortado da terra dos viventes’ e receber ’um túmulo’), este Servo verá ’a luz da vida’. Ele voltará à vida?! Eu analisei a questão da ressurreição. Aqui a ressurreição é prevista.  E ao ‘ver a luz da vida’ este Servo ‘justificará’ muitos. ‘Justificar’ é o mesmo que conceder ‘retidão’. Lembre-se de que a fé de Abraão lhe foi ‘creditada’ ou dada ‘retidão’. De maneira semelhante, este Servo justificará ou creditará retidão a ‘muitos’.

Por isso eu lhe darei uma porção entre os grandes,

e ele dividirá os despojos com os fortes,

porquanto ele derramou sua vida até a morte,

e foi contado entre os transgressores.

Pois ele levou o pecado de muitos,

e pelos transgressores intercedeu. (Isaías 53:12)

A passagem do Servo aponta tão misteriosamente para a crucificação e ressurreição de Jesus que alguns críticos dizem que as narrativas do evangelho foram escritas especificamente para ‘se encaixarem’ nesta passagem do Servo. Mas em sua conclusão Isaías desfia estes críticos. A conclusão não é uma predição da crucificação e ressurreição como tal, mas do impacto da morte muitos anos após ela. E o que Isaías prediz? Este Servo, ainda que ele morra como um criminoso, estará um dia entre os ‘grandes’. Os escritores do evangelho não poderia fazer esta parte ‘se encaixar’ nas narrativas do evangelho, pois os evangelhos só foram escritos poucas décadas após a crucificação de Jesus – quando o impacto da morte de Jesus ainda estava em dúvida. Aos olhos do mundo, Jesus ainda era o líder executado de uma seita rejeitada  quando os evangelhos foram escritos.

Estamos hoje 2000 anos mais tarde e vemos o impacto desta morte e percebemos como através da história isto lhe tem tornado ‘grande’. Os escritores do evangelho não poderiam ter previsto isso. Mas Isaías previu. O Servo, também conhecido como o Ramo, através de seu sacrifício voluntário, começaria a atrair as pessoas a ele – para até mesmo o adorarem – assim como Jesus predisse quando ele chamou a si mesmo de o ‘o Filho do Homem’ em seu julgamento diante do sinédrio.

O Ramo: Brotando exatamente em tempo para ser… ‘Cortado’

Estamos explorando tema de o Ramo que se estende através dos escritos de vários profetas veterotestamentários. Vimos que Jeremias em 600 A.C. continuou o tema (que Isaías iniciou 150 anos mais cedo) e declarou que este Ramo seria um Rei. Em nossa postagem prévia nós vimos que Zacarias, após Jeremias, previu que este Ramo seria chamado Jesus e que acumularia os papéis de Rei e Sacerdote – algo que jamais tinha acontecido na  História de Israel.

O enigma da chegada agendada do Ungido profetizado por Daniel

Mas o assunto não termina aqui. Daniel, que viver no período entre Jeremias e Zacarias, mencionou diretamente o título de ‘Ungido’ (que vimos aqui = ‘Cristo’ ou ‘Messias), ao mesmo tempo se referindo ao tema do Ramo em um enigma fascinante que previu quando o Messias seria revelado. Por volta de 538 A.C. ele escreveu o seguinte:

Saiba e entenda que, a partir da promulgação do decreto que manda restaurar e reconstruir Jerusalém até que o Ungido, o líder, venha, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas. Depois das sessenta e duas semanas, o Ungido será morto, e já não haverá lugar para ele.   (Daniel 9:25-26)

Pelo fato de o Ungido = Cristo = Messias (ver aqui), nós sabemos que Daniel estava escrevendo acerca da vinda de Cristo. Daniel especifica um período de início (“a partir da promulgação de um decreto para restaurar e reconstruir Jerusalém”) e um intervalo de período específico (“sete ‘setes’ e sessenta e duas semanas”) que culminará na revelação do Cristo (= O Ungido) que será, então, ‘cortado’. A estrutura geral desta predição parece bastante clara.  Mas nós podemos, na verdade, rastrear a revelação do Cristo? Vamos começar analisando o que iniciou o tique-taque deste relógio profético.

A Promulgação do decreto para restaurar e reconstruir Jerusalém

Aproximadamente 100 anos após Daniel, Neemias era copeiro de Artaxerxes, o imperador persa. Isso significa que ele era um homem com acesso ao mais elevado poder no império persa. Naquele contexto, ele solicita um decreto real para restaurar e reconstruir Jerusalém e é atendido. Eis aqui como ele relata ter feito tal pedido:

No mês de nisã do vigésimo ano do rei Artaxerxes… respondi ao rei: Se for do agrado do rei e se o seu servo puder contar com a sua benevolência, que ele me deixe ir à cidade onde meus pais estão enterrados, em Judá, para que eu possa reconstruí-la.

A seguir acrescentei: Se for do agrado do rei, eu poderia levar cartas do rei aos governadores… o rei atendeu os meus pedidos. Com isso fui aos governadores do Trans-Eufrates e lhes entreguei as cartas do rei. Acompanhou-me uma escolta de oficiais do exército e de cavaleiros que o rei enviou comigo. (Neemias 2:1-9)

Aqui vemos um decreto real, apoiado com documentos e com o exército do Império Persa para reconstruir Jerusalém. Em razão de o Imperador Artaxerxes ser conhecido na história secular, e pelo fato deste decreto especificar o início deste período em termos de reinado de Artaxerxes (vigésimo ano do reinado no mês de nisã), nós podemos determinar quando isto se deu. Artaxerxes assumiu o trono persa imediatamente após a morte de seu pai, Xerxes, em dezembro de 465 A.C. (1) e porque este decreto foi promulgado em nisã 1 (março/abril) do vigésimo ano, isto colocaria a promulgação do decreto em 5 de março de 444 A.C (1).

Sete ‘Setes’ e Sessenta e dois ‘Setes’

Mas o que são estes ‘setes’ que Daniel está utilizando para marcar o tempo? Na Lei de Moisés havia um ciclo de sete anos por meio da qual a terra deveria descansar do cultivo de agricultura a cada sete anos. Isto foi afirmado da seguinte maneira:

Quando vocês entrarem na terra que lhes dou, a própria terra guardará um sábado para o Senhor. Durante seis anos semeiem as suas lavouras, aparem as suas vinhas e façam a colheita de suas plantações. Mas no sétimo ano a terra terá um sábado de descanso, um sábado dedicado ao Senhor. (Levítico 25:2-4)

O contexto da declaração de Daniel é ‘anos’, portanto, por ‘sete’ ele quer dizer ciclos de sete anos. Neste caso, os Sete ‘Setes’ e Sessenta e dois ‘Setes’ podem ser afirmados numericamente como  (7+62) * 7 = 483 anos.

Um ano de 360 dias

O tamanho do ano complica levemente as coisas. Atualmente nós utilizamos o ano solar (=365.24219879 dias por ano) porque nós podemos medir com precisão a rotação da terra ao redor do sol. Naqueles dias era comum basear o ano a partir das rotações da lua (conforme o calendário islâmico faz até hoje) resultando em 354 dias/ano ou utilizando 12 meses de 30 dias totalizando 360 dias por ano. Em todos os casos alguns ajustes precisam ser feitos para ‘arrumar’ as diferenças nas rotações. (Em nosso calendário ocidental, com anos bissextos – 366 dias – para ajustar pelas frações do dia, com alguns anos bissextos sendo pulados). Nas civilizações antigas do Egito, Babilônia, índia e Grega um calendário de 360 dias era comum. Isto parece ser a base para estes anos em Daniel. Motivos adicionais para a utilização de um calendário de 360 dias são apresentados aqui.

A Chegada Agendada do Cristo

Munido desta informação agora é mais fácil calcular quando Cristo deveria chegar de acordo com a profecia de Daniel. 483 anos de 360 dias/ano nos dará:

483 anos * 360 dias/ano = 173. 880 dias

 Em nosso calendário moderno isso é o equivalente a 476 anos solares com 25 dias sobrando.  (173 880/365.24219879 = 476 com 25 como lembrete).

O ponto de partida para este cálculo foi o decreto de Artaxerxes promulgado no dia 5 de março de 444 A.C. Acrescente 476 anos solares  a esta data e chegaremos ao dia 5 de março do ano 33 A.D.  (Não existe ano zero, o calendário vai de 1A.C. a 1 A.D. em um ano, então, aritmeticamente é -444 + 476 +1= 33).

Se agora subtrairmos os 25 anos restantes e acrescentarmos a 5 de março do ano 33 A.D., chegamos a 30 de março de 33 A.D., ilustrado na linha do tempo abaixo. Ou, conforme Hoehner (cujo cálculo eu estou seguindo) afirma:

“Ao acrescentarmos 25 dias a 5 de março (444 A.C.) chegamos a 30 de março (33 A.D.), que era nisã 10. Este foi o dia da entrada triunfante de Jesus em Jerusalém…“ Hoehner, Chronological Aspects of the Life of Christ Part VI, pg. 16 1977.

A Linha do Tempo da profecia de Daniel de ‘setes’ culminando na entrada triunfante de Jesus
A Linha do Tempo da profecia de Daniel de ‘setes’ culminando na entrada triunfante de Jesus

A Entrada Triunfante de Jesus – Aquele Dia

Este é o  Domingo de Ramos, o exato dia que nos lembramos da entrada triunfante de Jesus em Jerusalém. Com as suposições que fizemos acima e utilizando matemática básica, descobrimos que o enigma de Daniel dos ‘setes’ cai exatamente neste dia. Este é o dia em que Jesus foi apresentado como Rei ou Cristo à nação judaica. Sabemos disto porque Zacarias (que havia profetizado o nome de Cristo) também escreveu que:

Alegre-se muito, cidade de Sião! Exulte, Jerusalém!

Eis que o seu rei vem a você, justo e vitorioso, humilde e montado num jumento, um jumentinho, cria de jumenta. (Zacarias 9:9)

 O tão aguardado Rei seria revelado entrando em Jerusalém montado sobre um jumento com uma multidão de pessoas gritando e se alegrando. No dia da Entrada Triunfante de Jesus em Jerusalém – aquele mesmo dia previsto por Daniel neste enigma dos ‘setes’ – Jesus entra em Jerusalém montando em um jumento. Lucas registra o acontecido:

Quando ele já estava perto da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos começou a louvar a Deus alegremente e em alta voz, por todos os milagres que tinham visto. Exclamavam:

“Bendito é o rei que vem… Paz no céu e glória nas alturas!”

Quando se aproximou e viu a cidade, Jesus chorou sobre ela e disse: “Se você compreendesse neste dia, sim, você também, o que traz a paz! Mas agora isso está oculto aos seus olhos. (Lucas 19:37-42)

Neste relato Jesus chora porque as pessoas não o reconheceram naquele mesmo dia previsto tanto por Zacarias quanto por Daniel. Mas porque elas não reconheceram aquele dia em que Cristo foi revelado, algo totalmente inesperado aconteceria. Daniel, na mesma passagem onde ele apresentou o enigma dos ‘setes’, previu que:

Depois das sessenta e duas semanas, o Ungido será morto, e já não haverá lugar para ele.   (Daniel 9:26)

Em vez de assumir o trono para reinar, o Cristo seria ‘cortado’ e ‘nada’ teria. Ao empregar a expressão ‘cortado’ (algumas Bíblias traduzem como ‘morrerá’) Daniel se refere ao ‘Ramo’, que brota da raiz de Jessé, profetizado por Jeremias, t nome profetizado por Zacarias  e previsto tanto por Daniel quanto Zacarias. Este Ramo seria  ‘cortado’. Então a cidade (Jerusalém) seria destruída (que sucedeu em 70 A.D.). Mas como este Ramo seria ‘cortado’? Retornaremos a Isaías em nossa próxima postagem  para vermos uma vívida descrição.

 

1) A referência utilizada por todo o texto é Chronological Aspects of the Life of Christ, Part VI: Harold W. Hoehner

 

O Ramo: Nomeado centenas de anos antes de seu nascimento

Vimos como Isaías utilizou a imagem do Ramo. Um ‘ele’ da dinastia caída de Davi, detentor de sabedoria e pode estava por vir. Jeremias veio em seguida afirmando que este Ramo seria o Senhor (o nome do Antigo Testamento para o próprio Deus).

Zacarias continua O Ramo

Zacarias retornou após o exílio babilônico para reconstruir o Templo
Zacarias retornou após o exílio babilônico para reconstruir o Templo

O profeta Zacarias viveu em 520 A.C., logo após o povo judeu ter retornado a Jerusalém de seu primeiro exílio na Babilônia. Naquela época o povo judeu estava reconstruindo seu templo destruído. O sumo-sacerdote da época era um homem chamado Josué e ele estava reiniciando a obra dos sacerdotes. Zacarias, o profeta, estava fazendo uma parceria com o seu colega Josué, o sumo-sacerdote, ao conduzir o povo judeu. Eis aqui o que Deus – através de Zacarias – disse acerca deste Josué:

 “Ouçam bem, sumo sacerdote Josué e seus companheiros sentados diante de você, homens que prefiguram coisas que virão: Vou trazer o meu servo, o Ramo (…) e removerei o pecado desta terra num único dia”. (Zacarias 3:8-9)

O Ramo! Iniciado por Isaías 200 anos antes, continuado por Jeremias 60 anos antes, Zacarias prossegue com ‘O Ramo’. Aqui o Ramo também é chamado de ‘meu servo’. De certa maneira o sumo-sacerdote Josué em Jerusalém em 520 A.C., colega de Zacarias, era um símbolo deste ramo por vir. Mas como? O texto diz que em ‘um único dia’ os pecados serão removidos pelo Senhor. Como isto aconteceria?

O Ramo: Unindo Sacerdote e Rei

Zacarias explica mais tarde. Para entender nós precisamos saber que os papeis do Sacerdote e  Rei eram estritamente separados no Antigo Testamento. Nenhum dos reis davídicos poderiam ser sacerdotes, e os sacerdotes não poderiam ser reis. O papel do sacerdote era mediar entre Deus e o homem através da oferta de sacrifícios de animais a Deus para expiar os pecados, e o trabalho do Rei era governar com justiça a partir do trono. Ambos eram cruciais, ambos eram distintos. Contudo, Zacarias escreveu que no futuro:

E o Senhor me ordenou: “(…) Pegue a prata e o ouro, faça uma coroa, e coloque-a na cabeça do sumo sacerdote Josué, filho de Jeozadaque. Diga-lhe que assim diz o Senhor dos Exércitos: ‘Aqui está o homem cujo nome é Ramo, e ele sairá do seu lugar e construirá o templo do Senhor. Ele construirá o templo do Senhor, será revestido de majestade e se assentará em seu trono para governar. E ele será sacerdote no trono. E haverá harmonia entre os dois’”. (Zacarias 6:9-13)

Aqui, contra todas as regras previas, o sumo-sacerdote na época de Zacarias (Josué) deve colocar a coroa simbolicamente como o Ramo. Lembre-se de que Josué ‘prefigurava (era símbolo de) as coisas que virão’. Josué, o sumo-sacerdote, ao colocar a coroa real, previa um futuro unindo o Rei e Sacerdote em uma pessoa – um sacerdote no trono do Rei. Ademais, Zacarias escreveu que ‘Josué’ era o nome do Ramo. O que ele quis dizer?

O nome ‘Josué’ é o nome ‘Jesus’

Para entender precisamos rever a história da tradução do Antigo Testamento. O Antigo Testamento original, em hebraico, foi traduzido para o grego em 250 A.C., conhecido como a Septuaginta ou LXX (70). Ainda amplamente utilizada, nós vimos como ‘Cristo’ foi primeiramente utilizado na LXX e seguimos aquela analise para ‘Josué’.

'Josué' = 'Jesus'. Ambos vêm do nome hebraico 'Yhowshuwa'
‘Josué’ = ‘Jesus’. Ambos vêm do nome hebraico ‘Yhowshuwa’

Como pode ver na figura, Josué eh uma transliteração para o português do nome hebraico original Yhowshuwa’. O quadrante #1 mostra como Zacarias escreveu ‘Josué’ em 520 AEC em hebraico. O nome é transliterado ‘Josué’ em português (#1=> #3). Yhowshuwa’ em hebraico é o mesmo que Josué em português. Quando a Septuaginta foi traduzida do hebraico para o grego em 250 A.E.C. Yhowshuwa foi transliterado para Iesous (#1 => #2). ‘Yhowshuwa’ em hebraico é o mesmo que Iesous no grego. Quando o grego é traduzido para o português, Iesous é transliterado para ‘Jesus’ (#2 => #3).  Iesous no grego é o mesmo que Jesus no português.

Jesus era chamado Yhowshuwa em língua falada em hebraico, mas no Novo Testamento em grego seu nome era escrito ‘Iesous’ – idêntico a como a Septuaginta grega escrevia seu nome. Quando o Novo Testamento é traduzido do grego para o inglês (#2 => #3) ‘Iesous’ é transliterado ao familiar nome ‘Jesus’. Portanto, o nome ‘Jesus’ = ‘Josué’, com ‘Jesus’ vindo através de um passo intermediário em grego, e ‘Josué’ vindo diretamente do hebraico. Tanto Jesus de Nazaré quanto Josué, o sumo-sacerdote de 520 A.E.C. tinham o mesmo nome, sendo chamados ‘Yhowshuwa’ em sua língua nativa hebraica. Em grego, ambos eram chamados ‘Iesous’.

Jesus de Nazaré é o Ramo

Agora a profecia de Zacarias faz sentido. Esta é uma predição feita em 520 A.E.C. que o nome da Ramo por vir seria ‘Jesus’, apontando diretamente para Jesus de Nazaré.

Este Jesus por vir, de acordo com Zacarias, uniria os papeis de Rei e Sacerdote. O que os sacerdotes faziam? Em nome do povo eles ofereciam sacrifícios a Deus para expiar os pecados. O sacerdote cobria os pecados do povo pelo sacrifício. Semelhantemente, o Ramo vindouro ‘Jesus’ iria oferecer um sacrifício de maneira que o Senhor ‘removerá o pecado desta terra em um único dia’ – o dia que Jesus ofereceu a si mesmo como sacrifício.

Jesus de Nazaré é bem conhecido fora dos evangelhos. O Talmude judaico, Josefo e todos outros escritores históricos sobre Jesus, tanto amigos quanto inimigos, sempre se referiram a ele como Jesus’ ou ‘Cristo’, então seu nome não foi inventado nos evangelhos. Mas Zacarias predisse seu nome 500 anos antes dele ter vivido.

Jesus vem ‘do tronco de Jessé’ uma vez que tanto Jessé quanto Davi foram seus ancestrais. Jesus possuía sabedoria e entendimento em um nível que o coloca em separado dos demais. Sua perspicácia, postura e discernimento continuam a impressionar tanto críticos quanto seguidores. Seu poder através dos milagres nos evangelhos é inegável. Pode-se escolher não acreditar neles, mas não se pode ignora-los. Jesus se encaixa na qualidade de possuir sabedoria excepcional e poder que Isaías predisse que um diria viria deste Ramo.

Agora pense na vida de Jesus de Nazaré. Ele certamente reivindicou ser rei – o Rei, na verdade. Isto é o que ‘Cristo’ significa. Mas o que ele fez enquanto esteve na terra foi na verdade sacerdotal. A tarefa do sacerdote era oferecer sacrifícios aceitáveis em prol do povo judeu. A morte de Jesus foi importante no sentido que ela também foi uma oferta a Deus, em nosso lugar. Sua morte expia o pecado e a culpa de qualquer pessoa, não apenas do judeu. Os pecados da terra foram literalmente removidos ‘em um único dia’ conforme Zacarias havia predito – o dia que Jesus morrer e pagou por todos os pecados. Em sua morte ele cumpriu todas as exigências como Sacerdote, ainda que ele seja mais conhecido como ‘O Cristo’ ou o Rei. Ele realmente uniu os dois papéis. O Ramo, aquele que Davi ha muito tempo chamou de ‘Cristo’, é o Rei-Sacerdote. E seu nome foi previsto por Zacarias 500 anos antes de seu nascimento.

De onde vem ‘Cristo’ em Jesus Cristo?

Eu por vezes pergunto às pessoas qual era o sobrenome de Jesus. Geralmente elas respondem: “Acho que o sobrenome dele era ‘Cristo’, mas não tenho certeza”. Então eu pergunto: “Se for assim, quando Jesus era um garotinho, o José Cristo e a Maria Cristo levavam o pequeno Jesus Cristo ao mercado?” Ouvindo desta forma, eles percebem que ‘Cristo’ não é o sobrenome de Jesus. Então, o que ‘Cristo’ significa? De onde vem este nome? Qual o significado do termo? É isto o que explorarei neste artigo.

Tradução vs. Transliteração

Primeiro precisamos saber algumas coisas básicas sobre tradução. Os tradutores às vezes escolhem traduzir pelo som semelhante no lugar do significado, em especial para nomes e títulos. Esta ação é conhecida por transliteração. Para a Bíblia, os tradutores precisaram escolher se suas palavras (em especial nomes e títulos) ficariam melhores na língua traduzida através da tradução (por significado) ou através da transliteração (pelo som). Não existe uma regra especifica.

A Septuaginta

A Bíblia foi primeiramente traduzida em 250 A.C. quando o Antigo Testamento hebraico foi traduzido para o grego. Esta tradução é a Septuaginta (ou LXX) e ela ainda é utilizada hoje em dia. Uma vez que o Novo Testamento foi escrito 300 anos mais tarde em grego, seus escritores citavam a Septuaginta grega em vez de o Antigo Testamento hebraico.

Tradução & Transliteração na Septuaginta

A figura abaixo mostra como isto afeta as Bíblias contemporâneas:

Isto mostra a tradução a partir do original para a Bíblia moderna dos dias de hoje
Isto mostra a tradução a partir do original para a Bíblia moderna dos dias de hoje

O Antigo Testamento foi escrito em hebraico – quadrante #1. As setas de  1 a #2 mostram sua tradução para o quadrante grego em 250 A.C. O Antigo Testamento estava agora em duas línguas – hebraico e grego. O Novo Testamento foi escrito em grego, então ele começou no quadrante #2.  Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento estavam disponíveis em grego – a língua universal há 2000 anos.

Na parte abaixo (#3) temos uma língua moderna como o português. Geralmente, o Antigo Testamento é traduzido a partir do hebraico original (indo do #1 para o #3) e o Novo Testamento a partir do grego (#2 -> #3).

A origem de ‘Cristo’

Agora seguimos a mesma sequência, mas focando na palavra ‘Cristo’ que aparece nos Novos Testamentos em português.

De onde 'Cristo' vem na Bíblia
De onde ‘Cristo’ vem na Bíblia

A palavra hebraica no Antigo Testamento era ‘mashiyach’ que o dicionário hebraico define como uma pessoa ‘ungida ou consagrada’. Reis hebreus eram ungidos (cerimonialmente esfregados com óleo) antes que se tornassem reis, consequentemente, eles eram os ungidos ou mashiyach.  O Antigo Testamento também profetizou acerca de um mashiyach especifico. Para a Septuaginta, seus tradutores escolheram uma palavra em grego com um significado semelhante – Χριστός (cujo som se parece como Christos), que vinha de chrio, que significa esfregar cerimonialmente com óleo. Portanto, Christos foi traduzido por significado (e não transliterado por som) a partir do termo hebraico original ‘mashiyach’ na Septuaginta grega. Os escritores neotestamentários continuaram a utilizar a palavra Christos ‘ em seus escritos para identificar Jesus como o mashiyach.

Na Bíblia em português, o termo hebraico Mashiyach do Antigo Testamento é comumente traduzido como ‘o ungido’ e as vezes transliterado como o ‘Messias’. O termo Christos do Novo Testamento é transliterado como ‘Cristo’. A palavra ‘Cristo’ é muito especifica, derivada por tradução a partir do hebraico para o grego, e então transliteração do grego para o português.

Porque não vemos prontamente a palavra ‘Cristo’ no Antigo Testamento de hoje esta relação com o Antigo Testamento é difícil de ser vista. Mas a partir desta analise nós sabemos que na Bíblia o termo ‘Cristo’=’Messias’=’O Ungido’ e que este termo era um titulo específico.

O Cristo antecipado no primeiro século

Abaixo está a reação do Rei Herodes quando os sábios do Oriente vieram procurando pelo  ‘reis dos judeus’, uma parte bastante conhecida há história do natal. Observe, o artigo ‘o’ precede Cristo, ainda que ele não esteja se referindo especificamente à Jesus.

Quando o rei Herodes ouviu isto, ele ficou perturbado, e toda Jerusalém com ele. Quando ele convocou topos os lideres dos sacerdotes e professores da lei, ele lhes perguntou onde o Cristo haveria de nascer. (Mateus 2:3-4)

A ideia de ‘o Cristo’ era conhecimento comum entre Herodes e seus conselheiros religiosos – mesmo antes de Jesus ter nascido – e o termo é utilizado aqui sem se referir especificamente à Jesus. Isto porque ‘Cristo’ vem do Antigo Testamento grego, que era comumente lido por judeus do primeiro século. ‘Cristo’ era (e ainda é) um titulo, não um nome. O titulo estava em existência centenas de anos antes do cristianismo.

Profecias veterotestamentárias de ‘O Cristo’

Na verdade, ‘Cristo’ é um titulo profético já nos Salmos, escritos por Davi cerca de 1000 A.C. – bem antes do nascimento de Jesus.

Os reis da terra tomam posição (…) contra o Senhor e contra o seu ungido (…) o Senhor põe-se a rir e caçoa deles (…) dizendo: “Eu mesmo estabeleci o meu rei em Sião, no meu santo monte”. Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: “Tu és meu filho; eu hoje te gerei”. (Salmos 2:2-7)

O Salmo 2 na Septuaginta seria lido da seguinte maneira (estou colocando com o Cristo transliterado para que você possa ‘ver’ o titulo de Cristo como um leitor da Septuaginta podia)

Os reis da terra tomam posição (…) contra o Senhor e contra o seu Cristo (…) o Senhor põe-se a rir e caçoa deles …. (Salmos 2)

Você agora pode ‘ver’ Cristo nesta passagem como um leitor do primeiro século podia ver. Mas os Salmos continuam com mais referencias a este Cristo que estava por vir. Eu coloco a passagem lado a lado com um ‘Cristo’ transliterado para que você possa ver o título.

Salmos 132- Do hebraico Salmos 132 – Da Septuaginta
Senhor, (…)10 Por amor a teu servo Davi, não rejeites o teu ungido.11 O Senhor fez um juramento a Davi, um julgamento firme que ele não revogará: “Colocarei um de seus descendentes em teu trono — …17 “Ali farei renascer o poder de Davi e farei brilhar a luz do meu ungido ”. Senhor, (…)10 Por amor a teu servo Davi, não rejeites o teu Cristo.11 O Senhor fez um juramento a Davi, um julgamento firme que ele não revogará: “Colocarei um de seus descendentes em teu trono — …17 “Ali farei renascer o poder de Davi e farei brilhar a luz do meu Cristo ”.

O Salmo 132 fala no tempo verbal futuro (“… farei renascer o poder de Davi…”) como tantas muitas passagens por todo o Antigo Testamento. Não é que o Novo Testamento pega algumas ideias do Antigo Testamento e as ‘fazem’ se encaixar em Jesus. Os judeus sempre estiveram esperando pelo seu Messias (ou Cristo). O fato de que eles estão esperando ou buscando a vinda do Messias tem tudo a ver com as profecias que falam do futuro no Antigo Testamento.

As profecias do Antigo Testamento: Específicas como um sistema de uma fechadura

O fato de o Antigo Testamento especificamente predizer o futuro o transforma em literatura incomum. É como uma fechadura de uma porta. Uma fechadura tem um determinado modelo de forma que somente uma ‘chave’ especifica que combina com a fechadura pode abri-la. Da mesma maneira, o Antigo Testamento é como uma fechadura. Nós vimos isto nas postagens sobre o sacrifício de Abraão, o início de Adão, e a Páscoa de Moisés. O Salmo 132 acrescenta a exigência de que ‘o Cristo’ viria da descendência de Davi. Eis aqui uma pergunta que vale a pena ser feita: Jesus é a chave que destrava as profecias?